
Convidados abordaram o combate ao racismo no auditório da FGF | Foto: Max Peixoto/FGF
Na noite desta segunda-feira (27), o auditório da Federação Gaúcha de Futebol - FGF foi palco de um debate fundamental para o futuro do esporte no Estado. Unindo os projetos FGF Conecta e Protocolo Zero, a entidade promoveu a Roda de Conversa sob o tema central: "Quando o zero não é vitória: o que o Gauchão 2026 nos diz sobre o racismo?". O evento teve como objetivo propor uma reflexão coletiva sobre o registro de zero casos de racismo durante a última edição do Campeonato Gaúcho, questionando se o dado reflete uma mudança real de comportamento.
O debate foi integrado por Marcelo Ducati, diretor financeiro da FGF e representante da diretoria da Federação; Nina Fola, socióloga da Odabá e coordenadora do projeto Protocolo Zero – Fim de Jogo para o Racismo; Marcelo Carvalho, diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol; Tiago Pedra, atleta de futebol; Wagner Echevarria, árbitro da Comissão Estadual de Árbitros de Futebol - CEAF/RS; e Mariana Dionisio, jornalista do Grupo RBS.
Os convidados foram recepcionados pela comitiva da diretoria da FGF, composta pelo diretor financeiro, Marcelo Ducati, pelo diretor jurídico, Gilson Kroeff, pelo diretor de segurança e ouvidor geral de competições, Rogério Stumpf, e pela coordenadora de comunicação, Christiane Matos. O evento também contou com a participação de demais colaboradores da Federação.
Foto: Max Peixoto/FGF
A abertura do encontro foi marcada pela declaração do presidente da FGF, Luciano Hocsman, que destacou o papel da entidade na construção de uma cultura mais inclusiva dentro e fora do esporte.
- Desde 2020 estamos implementando ações que auxiliem e nos ensinem a como tratar esse assunto internamente e depois externamente. Muito se fala que o futebol é um reflexo da sociedade. Na Federação Gaúcha de Futebol, nós começamos a fazer com que a sociedade seja um reflexo do futebol. A nossa luta é para que o esporte seja um exemplo de um mundo mais inclusivo e participativo, onde não haja qualquer tipo de discriminação. A Federação trabalhará incessantemente para que esse número de zero casos de racismo se estenda às demais competições e também para a sociedade do Rio Grande do Sul e do Brasil - enfatizou Luciano Hocsman.
UMA MESA MULTIDISCIPLINAR
A diversidade de trajetórias presentes na mesa evidenciou a complexidade do enfrentamento ao racismo no futebol, reunindo perspectivas institucionais, acadêmicas, esportivas e midiáticas. Em comum, as falas apontaram para a necessidade de compreender o dado de “zero casos” para além da superfície numérica, considerando fatores como transformação institucional e a construção de mecanismos mais eficazes de denúncia e acolhimento.
Nesse contexto, o debate também ganha contornos ainda mais relevantes no Rio Grande do Sul, estado em que cerca de 79% da população se autodeclara branca. O dado reforça a importância de iniciativas que promovam não apenas a visibilidade do problema, mas também a responsabilização coletiva e o engajamento de diferentes setores na transformação dessa realidade.
Representando a FGF, Marcelo Ducati destacou o caráter propositivo das ações desenvolvidas pela entidade e a intenção de avançar para além de campanhas simbólicas.
- Esse projeto surgiu com uma ideia e uma motivação de fazer diferente, de não simplesmente passar faixas de combate ao racismo, mas de tentarmos atacar essa situação. A gente entende que não foram zerados os casos de racismo, tanto no futebol quanto na sociedade. Mas é esse debate que a gente quer promover com a sociedade e com os entes envolvidos, de como a gente vai continuar neste caminho - disse Ducati.
Foto: Max Peixoto/FGF
Ao trazer dados históricos, Marcelo Carvalho contextualizou a trajetória do Rio Grande do Sul nos relatórios nacionais e apontou mudanças recentes no cenário.
- O Observatório vem monitorando o racismo no futebol brasileiro desde 2014. Em oito relatórios, o Rio Grande do Sul aparecia como o estado com mais denúncias. Nos dois últimos, após o Protocolo Zero, São Paulo passou a liderar. É importante vermos o quanto a Federação trabalhou e o quanto avançamos em termos de debate e iniciativas. Precisamos incentivar a denúncia, com uma rede de proteção e acolhimento - acrescentou Marcelo.
Foto: Max Peixoto/FGF
A partir de uma perspectiva sociológica, Nina Fola enfatizou a necessidade de inovação nas estratégias de enfrentamento, destacando o racismo como um fenômeno estrutural e histórico.
- Sabemos que ainda estamos em uma luta que é desigual. Isso faz com que a gente pense e elabore uma tecnologia social nova, porque se isso é inovador, não há método certo, não há resposta certa para atuar contra isso. O que mudou não foi apenas o número, foi a nossa capacidade institucional de responder, de criar estratégias para que a denúncia seja concreta. O dado mais importante não é a queda numérica, é o que está acontecendo no meio do caminho - reconheceu Nina.
Foto: Max Peixoto/FGF
Do ponto de vista dos atletas, Tiago Pedra trouxe um relato direto sobre os impactos emocionais e a persistência do problema.
- Dentro de campo, já vi muita coisa acontecer. Em 2024, fui vítima de racismo. O ser humano tem memória curta: foi feito um movimento muito grande na época, mas depois de dois anos, só eu sei a dor do que foi falado. Conheço muitos atletas que não denunciam. Eu tive a coragem de denunciar. Esse tipo de debate é fundamental para conscientizar sobre o quanto isso machuca - relatou Tiago.
Foto: Max Peixoto/FGF
Na arbitragem, Wagner Echevarria destacou o papel da categoria na construção de um ambiente de respeito e na atenção a episódios de discriminação.
- O respeito precisa estar em qualquer lugar, independentemente da idade e cor. Levamos para o campo essa troca com os atletas. Precisamos nos sensibilizar quando acontece qualquer tipo de discriminação. Felizmente, no último Estadual não tivemos casos, muito em função das ações realizadas - constatou Echevarria.
Foto: Max Peixoto/FGF
No campo da comunicação, Mariana Dionisio reforçou a importância da continuidade do debate e da representatividade nos espaços de fala.
- A primeira coisa que pensei foi na importância de falarmos sobre esse assunto em um mês que não seja novembro. Esse tema precisa ser tratado o ano inteiro. Dentro do jornalismo, hoje se entende muito mais a gravidade dessas situações. Isso também passa pelo aumento da presença de pessoas negras nas redações, mas ainda há desigualdades em diversas áreas do futebol e da comunicação - finalizou Mariana.
Foto: Max Peixoto/FGF
O evento também contou com a presença de representantes de diversas instituições públicas e privadas, reforçando o caráter interinstitucional da pauta. Estiveram presentes membros da Defensoria Pública, OAB/RS, Brigada Militar, Polícia Civil, e clubes gaúchos, além de coletivos negros e esportivos.
Ao propor uma análise crítica sobre o dado de “zero casos”, a iniciativa buscou ir além da leitura estatística, estimulando reflexões sobre subnotificação, silenciamento e os desafios ainda presentes no enfrentamento ao racismo no futebol.




